domingo, 14 de dezembro de 2008

O Sonho de Noémia

Na cabeça de Noémia(1) ressoa monótono o refrão que ouviu tantas vezes aos soldados já bêbados...“Estou farto deles(2) ...estou farto deles, da chicalhada(3) ...só mandam bocas...e não fazem nada! e não fazem nada!......
Contra o céu azul de bilhete postal(4) recorta-se a fachada do CinePolana coberta por um imenso cartaz do filme em estreia, “Branca e Radiante” . No céu paira o rosto gigante da “Rainha da Rádio”...Branca e Radiante...Branca e Radiante...e não fazem nada!... e não fazem nada!...o olhar da rainha é o olhar da outra, e é desse olhar que Noémia foge de cada vez que o sonho se repete, com detalhes diferentes, mas ela está sempre lá... e Noémia está sempre em fuga, com o coração aos saltos...
Tum, Tum, Tum!... Tum, Tum, Tum!... agora é de noite e ela foi ter ao musseque, junto à praia, onde mora a ama Júlia.
A mulher macaca está no meio do terreiro vestida de branco rodeada de mamanas e a noite fica alumiada pelo clarão das fogueiras. Tum, Tum, Tum!... A mulher macaca fuma um longo cachimbo e anda à roda, envolta em fumo, até se desequilibrar e encontrar apoio nas mamanas que a cercam... Tum, Tum, Tum!... Tum, Tum, Tum!...Noémia consegue aproximar-se e pergunta à macaca que fuma, porque é que está ali e a macaca/ama, fala-lhe, e diz-lhe então que se chama Júlia e que estava ali à espera dela. O Feiticeiro também tem corpo de macaco e usa uma máscara medonha e uma farta cabeleira verde que esvoaça com ele em grandes saltos de um extremo ao outro do terreiro. Tum, Tum, Tum!... Tum, Tum, Tum! ...
Há um grupo de oficiais de farda azul, que estão a beber um líquido também azul, que os torna transparentes... e cantam ainda em voz arrastada...e não fazem nada!...e não fazem nada!...e não fazem nada!...” Os oficiais brigam entre si mas é a brincar porque evitam tocar-se. Noémia quer sair dali mas, como das outras vezes, não pode, porque já é noite e vai procurar um sítio onde a deixem dormir... Tum, Tum, Tum!... Tum, Tum, Tum! ...Fica na casa da ama Júlia, com a condição de não tocar na torta de laranja que está em cima da mesa. Noémia tem vergonha de ir comer a torta às escondidas e de manhã vai-se embora sem lhe tocar... Estou farto deles!...estou farto deles!.... e não fazem nada!...e não fazem nada!...e não fazem nada!...” repetia o papagaio vermelho da tasca da esquina.
Noémia acordou...O rádio debita as notícias das 8 da manhã...Em Lisboa a Revolução dos Cravos vai pôr um fim abrupto aos sonhos de Noémia.


Workshop “Diário Gráfico” – 1 de Dezembro de 2008

[1] Noémia, a mulher gorda e de biquini amarelo da fotografia da praia de Santo Amaro de Oeiras, é moçambicana, sexagenária, retornada, ex-amante de oficial, cozinha doces para lojas de centros comerciais de Benfica, adora praia, foi campeã de natação, é livre e desinibida e pratica dança do ventre!
[2] do” Cancioneiro do Niassa” que era uma selecção de canções “subversivas” gravada por milicianos, que passava entre militares e familiares, durante a guerra colonial
[3]“ Chicos” – oficiais do quadro
[4] O” bilhete postal” foi-nos apresentado pelo prof. Possidónio Cachapa numa das sessões do Workshop Diário Gráfico em Dezembro de 2008, mas não era bem assim..

2 comentários:

Yara Kono disse...

Que bom saber que tem um blog, é a primeira visita que cá faço e certamente não será a última. x

Anónimo disse...

Yara: Que surpresa boa, a tua visita, volta sempre!
Um abraço da
Ana